segunda-feira, 18 de julho de 2011

Uma noite do porvir.

Desapontou-se ao ver a imagem refletida no espelho. Depois de cinco minutos ainda não havia conseguido deixar o cabelo a seu gosto.
- Deveria ter cortado. - pensou em voz alta.
O cabelo estava exatamente do jeito que ele usava todos os dias, mas talvez esse fosse o problema. Hoje não era um dia como todos os dias.
Ele tinha passado as últimas duas semanas pensando sobre o assunto, mas tentava coibir as próprias fantasias quando tangiam aos acontecimentos que provavelmente viriam nas horas seguintes. Não porque fossem ruins, mas porque ele decidiu que a personalidade que estava tentando construir não competia com os sentimentos que esta noite prometia fazê-lo sentir. Ele sabia que conquistaria o êxito numa batalha que travou inconscientemente.
Não sabe como chegou ali, mas o fato é que havia acontecido.
Três anos antes isso seria deveras engraçado. Eram todos crianças e ela, principalmente. Pouco se viram nesse intervalo de tempo. No começo, por causa do outro. Ele, arrogante e presunçoso, a seduzira com uma lábia barata, um jogo sujo que a prendeu por muito tempo. Roubou dela toda inocência de menina, sua jovialidade e aquele jeito de criança que tanto gostava de sentir nela. Depois, ela sumiu no mundo.
Sua volta foi uma surpresa para todos, não pela presença inesperada, mas pelo ar misterioso que ela havia adquirido. Sorria pouco, falava pouco, expressava-se com as sobrancelhas e olhares de reprovação. Da menina que todos àquela mesa se recordavam, não sobrara quase nada. A um canto, falava com um ou com outro, sem nenhum sinal de suas espalhafatosas manias. Usava salto. O salto foi um choque na espinha.
Não atraia os meninos pela beleza, embora nitidamente havia aprendido a se arrumar, mas os encantava por conter segredos que eles se deliciariam em desvendar.
No meio da noite, todos já estavam altos, menos ele. Cautelosamente, ela o chamou para uma conversa.
E, mais uma vez, ele pensou: três anos antes isso seria realmente estranho.
O fato é que em alguns minutos ele a encontraria novamente. E ao outro também. E todos os amigos veriam a  cena como um último capítulo de novela, surpresos. E a droga do cabelo não se ajeitava.
Chegou ao restaurante dez minutos depois do combinado e todos já estavam em seus lugares, na segunda rodada de cerveja. O outro, no entanto, não havia ainda dado o ar da graça. Nenhum dos presentes se desagradava com isso e, aliás, muito pelo contrário. Somente ele fazia questão que o outro visse de camarote.
Como se a força de seu pensamento o atraísse, mal acomodara-se na cadeira e ele chegou. Uma enxurrada de sorrisos falsos se derramou por breves segundos. Alguns núcleos de conversas foram obrigados a cessar quando ele começou seu próprio assunto, como era acostumado a fazer.
Mas ela demorava. E os quinze minutos que se passaram depois da chegada pareceram uma eternidade teimosa que carregava espetos nas mãos para cutucá-lo e deixá-lo o mais desconfortável possível. E para pior, o outro inciou uma conversa descabida:

- E aí, cara, como está a vida?
- Ahn... bem.
- Novidades? Que você anda fazendo?
- Não, nada. - espichou o olhar pela janela e teve a impressão de ver o carro dela estacionando. Respirou fundo.
- E a faculdade?
- Muito boa. Realmente ótima.
- Pois é, eu tive que...

Todos pararam de falar. Os cabelos loiros, impecavelmente presos em um rabo de cavalo, haviam apontado na porta do restaurante. Ela vestia-se de preto, os tecidos salientavam as curvas e usava uma bota de salto finíssimo que ia até perto do joelho. Usava, também, joias discretas que chamavam a atenção pela beleza sóbria. Não sorria, mas os olhos falavam através da maquiagem muitíssimo bem acabada.
As meninas estremeceram, ajeitaram os próprios cabelos. Despejaram cumprimentos. Ela, delicadamente, cumprimentou a todos, um por um por. Quando chegou no outro, apenas um leve aceno de cabeça.
Ela veio, então, em direção a ele. Abriu um sorriso e inclinou-se para beijá-lo nos lábios.
Estava encerrado ato final e ele havia se preparado para os aplausos. Ela, na sua versão melhorada no enésimo grau, o beijava na frente de todos. E, de canto de olho, ele pôde notar o desconforto alheio que o fizera ganhar a noite.
Pouco importava ela, ou quem ela era. Era um troféu que ele erguia com prazer. Esperava não vê-la mais na semana seguinte.

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