sábado, 30 de julho de 2011

9 - 10

Ia e voltava. Sentava, levantava, fechava os olhos. Respirava fundo, tossia, queria acender um cigarro.
"Eu não fumo!"
Queria acender um cigarro. Mil cigarros.
Ia até a porta, pegava a chave, rodava nos dedos, olhava a janela, olhava a parede, olhava imagens aleatórias na tv.
Queria qualquer desculpa para sair. Sair e parar. E ficar.
Esfregava as mãos, brincava com o anel, ajeitava o casaco, abria e fechava o zíper da bota. Abria a geladeira, não pegava nada. Vasculhava as prateleiras com olhos famintos de algo não comestível.
Queria colocar uma belíssima lingerie, comprar um maço de cigarros, molhar o cabelo na chuva e observar aquele lugar conhecido de outro ângulo. De outra janela. Queria repetir a cena do filme que vira.
Sim, ela sabia que era errado. Moralmente incorreto, socialmente inaceitável, fisicamente impossível. Ou nem tanto.
Sim, ela já esteve do outro lado. Sentiu o gosto amargo das lágrimas que possivelmente causaria, se enterrou em travesseiros, maldisse o mundo, gritou com todos, odiou cada centímetro dele e dela. Mas agora é diferente, não é?
E se for igual, que seja! Não é vingança, de qualquer forma.

E lá iam os pensamentos enquanto ela levanta e sentava e ia e vinha. E nem um chuveiro pra tomar um banho quente e esquecer de tudo. E nem um olhar para consolar, e nenhuma batida na porta.
Deixou o lugar quase correndo. Comprou um pacote de biscoito recheado ao invés do maço de cigarros. Mas fumou todos em pensamento. Os cotovelos apoiados na janela e luz que entrava fraca, desenhando a silhueta. O cabelo pelo meio das costas nuas e o sorriso malicioso nos lábios que se serviam de umas doses de nicotina.
O pensamento era o mais delicioso enquanto a chuva lá fora vinha para lembrar que ela estava sozinha, engordando 142 kcal a cada dois biscoitos e meio.

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