Nada.
Andou devagar até a cozinha. O restante da garrafa não encheu o copo até a metade e o gelo tinha acabado.
Sentou-se ao lado do fogão, sentindo o cheiro do óleo derramado e barro na sola dos sapatos.
Olhou para o vazio do corredor e achou que talvez fosse melhor deixar o celular por perto, mas não conseguiu mexer nenhum músculo capaz de fazê-la levantar.
Tudo estava impecavelmente parado. A louça suja na pia, o relógio sem pilha, os copos no escorredor, a fatia solitária no saco de pão, o café frio na cafeteira, a sua vida inteira.
Talvez fosse só uma questão de tempo. Mas ela não queria voltar. E não queria avançar. Queria que todos os relógios fossem como o seu, estivessem mortos e esquecidos.
Fechou os olhos e pôde ver o céu tão claro que parecia ter nascido assim, branco. E as nuvens que, então, deixavam tudo cinza, como num filme antigo em que as cores não se fazem necessárias. A luminosidade era fria como o piso, mas algo a aquecia e fazia aumentar a frequência cardíaca. Suspirou pelo dia em que deitaria abaixo desse cinza e teria a visão ofuscada, as lágrimas deslizariam pela face, a retina pediria misericórdia, mas ela sonhava em continuar olhando, dissecando cada centímetro da ausência de tudo. O sabor de não pensar em nada, não ser nada, ou algo tão pequeno que fosse completamente engolido pelo entorno. Sumir.
Ergueria a cabeça e sentiria a vida ser um grão de poeira, carregado sem qualquer estima ou esmero, apenas flutuaria sem rumo. Nada, nada, nada.
Abrir os braços e não ser nada. Pregar as pálpebras e não ser nada. Deitar-se no vento e não ser nada.
Nada a ser julgado, comprado, esperado, depositado, planejado. Ser por simplesmente ser, existir, inspirar e expirar. Cumprir o ciclo.
As mitoses continuariam, as hemácias com seus gases, os neurônios com suas sinapses, as osmoses e fermentações láticas. Tudo continuaria sem que precisassem abastecer um corpo exausto, morrendo em vão. Tudo também seria único em si, e finalmente constituiriam um organismo.
E sozinha ela seria milhões de vezes ela mesma.
Sentou-se ao lado do fogão, sentindo o cheiro do óleo derramado e barro na sola dos sapatos.
Olhou para o vazio do corredor e achou que talvez fosse melhor deixar o celular por perto, mas não conseguiu mexer nenhum músculo capaz de fazê-la levantar.
Tudo estava impecavelmente parado. A louça suja na pia, o relógio sem pilha, os copos no escorredor, a fatia solitária no saco de pão, o café frio na cafeteira, a sua vida inteira.
Talvez fosse só uma questão de tempo. Mas ela não queria voltar. E não queria avançar. Queria que todos os relógios fossem como o seu, estivessem mortos e esquecidos.
Fechou os olhos e pôde ver o céu tão claro que parecia ter nascido assim, branco. E as nuvens que, então, deixavam tudo cinza, como num filme antigo em que as cores não se fazem necessárias. A luminosidade era fria como o piso, mas algo a aquecia e fazia aumentar a frequência cardíaca. Suspirou pelo dia em que deitaria abaixo desse cinza e teria a visão ofuscada, as lágrimas deslizariam pela face, a retina pediria misericórdia, mas ela sonhava em continuar olhando, dissecando cada centímetro da ausência de tudo. O sabor de não pensar em nada, não ser nada, ou algo tão pequeno que fosse completamente engolido pelo entorno. Sumir.
Ergueria a cabeça e sentiria a vida ser um grão de poeira, carregado sem qualquer estima ou esmero, apenas flutuaria sem rumo. Nada, nada, nada.
Abrir os braços e não ser nada. Pregar as pálpebras e não ser nada. Deitar-se no vento e não ser nada.
Nada a ser julgado, comprado, esperado, depositado, planejado. Ser por simplesmente ser, existir, inspirar e expirar. Cumprir o ciclo.
As mitoses continuariam, as hemácias com seus gases, os neurônios com suas sinapses, as osmoses e fermentações láticas. Tudo continuaria sem que precisassem abastecer um corpo exausto, morrendo em vão. Tudo também seria único em si, e finalmente constituiriam um organismo.
E sozinha ela seria milhões de vezes ela mesma.
Marcadores: Minha história que não é minha


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