Outra noite de lua não qualquer.
Quando olhou no relógio eram 22:36h e estavam parados. Não tinha a mínima fome, mas estavam todos pensando em comprar algo para comer. O estômago estava embrulhado. Fazia calor.
Foi até a lanchonete e pegou a primeira coisa que julgou não piorar seu estado gástrico e ao estender a nota para a moça, notou que as mãos já estavam tremendo e suando. E sabia o que isso significava. Típico. Tal como andar rápido e não absorver qualquer imagem exterior, tão focado estava no seu interior em ebulição. Em dois e segundos, ponderou no mínimo vinte vezes se sentaria ou não ao lado dela quando retornasse, mas antes de chegar à conclusão sensata, já se via pedindo licença e cumprimentando-a com um olá menos tímido do que gostaria. A efusão era um dos seus traços menos admiráveis e ele, já há algum tempo, vinha tentando contê-la.
Ela, no entanto, não esboçou emoção alguma e ficaram em silêncio por alguns cruéis segundos em que ele fingiu estar plenamente concentrado no pacote recém adquirido. As mãos tremiam tanto que ele não conseguiu abri-lo nem na quarta tentativa. Ela ainda estava com o fone na orelha esquerda.
Respirar fundo. O máximo possível. Tinham lhe ensinado isso no ano anterior. A oxigenação do cérebro contribui para a velocidade das sinapses, o que significa que você não vai fazer nenhuma besteira em um segundo de distração. Praticava isso frequentemente. Inspirar até os pulmões dizerem chega e soltar concentrando naquilo que, pelo amor de todos os santos, não pode ser feito. Embora parecesse que sofria com uma embolia pulmonar.
Ela, finalmente, tirou o outro fone e com nítida entonação de obrigação perguntou como ele estava. Sem tirar os olhos do pacote, ele respondeu que estava tudo bem, querendo dizer que não estava. Mas, se tratando dele, é lógico que bastaram três minutos para que ele o dissesse. Ela murmurou qualquer coisa antes de, mais uma vez, perguntar por educação quais eram os motivos. Ele falou por cinco minutos. O arrependimento escorria pelos olhos dela. Finalizaram o diálogo logo em seguida, mas ele não se levantou, embora soubesse que ela aguardava isso impacientemente. Era a vez dela de suspirar.
No silêncio, agora combinado com a escuridão, ele fechou os olhos e pensou apenas consigo próprio. Ignorou o perfume dela que viajava diretamente para suas vias aéreas e focou-se na imagem interior que se forçara a remontar. Lembrou-se dos amigos de longa data, essas pessoas que ele levava guardadas no cofre de sua vida e como havia sido fascinante reencontrá-los, ainda que muito diferente da forma como faziam cinco anos antes. Porém, ainda tinham as mesmas vozes, os mesmos trejeitos, as manias de coçar o nariz, mexer no cabelo, levantar as calças, cruzar os braços. E ele sentiu-se novamente o garoto em meio aos colegas do Ensino Médio, matando alguma aula com um violão nas mãos. Não trocaria aquilo por nenhuma garota que conhecera há meio ano. Pelo menos não agora.
A fraca luz que ainda incidia no ambienta vinha diretamente aos olhos dela, que fechavam por um longo período, mas abriam como para certificarem-se que tudo ainda estava no lugar em que deveria estar. Sua expressão era calma, sem indícios de exaltação interna. Com certeza ela não sentia o mesmo e esse era mais um motivo para não arriscar. Mas bastava olhar para ela que qualquer pensamento racional corria para se esconder. Ele pulsava por inteiro e cada músculo, cada nervo de seu corpo implorava pelos movimentos que o levariam para perto dela. O nervosismo fazia secar os lábios, que ele umedecia com frequência, e, paradoxalmente, fazia escorrer da palma das mãos um suor frio que ele se apressava em secar nas calças amarrotadas.
Não sabia para onde olhar senão para ela, não sabia onde pôr as mãos senão em qualquer lugar em que pudessem, ao menos, fazer uma troca de temperaturas. Perto o suficiente para que os pelos do braço de eriçassem. E no maior de seus conflitos, ele levantou a mão e pousou-a sobre o ombro dela.
O toque foi como uma descarga elétrica, como um tufão que arrebatara todo seu ser, levantando tudo que ainda o impedia de abrir ao máximo seu coração. Abraçou-a, contendo as lágrimas. Ela ainda era tudo o que ele queria sentir naquele instante. Sabia que ela correspondia por pena, sacrificando-se e penalizando-se. Mas também sabia que ela conseguia sentir seus batimentos descontrolados e nenhuma palavra precisou ser dita.
Ao abrir os olhos já era quase uma da manhã. Ela soltou-se apressada, ele acordou de um sonho. Envergonhou-se. Rapidamente refez-se, reconstruiu-se junto com todas as suas convicções. Ela era o mais doce de todos os venenos que provara e com essa dose quase mortal ele sentia-se imunizado.
Não falaram sobre isso e despediram-se em tom seco. Mas o perfume dela continuou em suas roupas. E enquanto jogava-as na máquina de lavar, desejava que tudo o que sentira também fosse desinfetado, para que restassem apenas a afeição e a amizade recém surgida. Ela, com certeza, não deixaria ser mais do que isso e ele contentou-se em saber que talvez não fosse tão difícil assim.
Marcadores: Minha história que não é minha


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